quarta-feira, 18 de abril de 2007

Amigos...

"Não precisa ser homem, basta ser humano, ter sentimentos, ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir.
Tem que gostar de poesias, de madrugada, de pássaros, de sol, de lua, de canto, dos ventos, das canções da brisa.
Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.
Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo.
Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão nem é imprescindível que seja de segunda mão.
Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados.
Não é preciso que seja puro, nem que seja de todo impuro, mas não deve ser vulgar.
Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vazio que isso deixa.
Deve ter ressonâncias humanas, o seu principal objectivo deve ser o de ser amigo.
Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários, deve gostar de crianças e lamentar as que não puderam nascer.
Que saiba conversar de coisas simples, de orvalho, de grandes chuvas e de recordações de infância.
Precisa-se de um amigo para não enlouquecer para conta o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade.
Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e dos caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela mas porque já se tenha um amigo.
Precisa-se de um amigo para se parar de chorar, para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas.
Que nos bata nos ombros sorrindo e chorando, mas que nos chame de amigo, para se ter consciência que ainda se vive."

Vinícius de Morais

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